A DOR ADORMECIDA - Glênio Fonseca Paranaguá

E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. Marcos 11:25.

Já vimos, em outra ocasião, que ninguém, no jogo desta vida, vive sem cotoveladas. Nestes estudos sobre a anistia, já constatamos também que é impossível um convívio normal isento de feridas e contusões. Todos nós, em algum momento de nossa existência, acabamos trombando com alguém ou recebendo alguma trombada que machuca e deixa sequelas graves.
Tanto o que bate como o que apanha, de alguma maneira, termina sofrendo certas dores em razão dos esbarrões. As relações, daí para frente, não ficam à vontade. Há sempre uma ponta de desconforto por detrás dos bastidores e uma dor importuna, que pode até ficar adormecida nas entranhas, mas continua irritando os tecidos emocionais.  


A história da humanidade é uma crônica escrita com as dores agudas da alma, que evoluem lentamente até se tornarem em dores crônicas e difíceis de serem curadas. As pessoas que foram contundidas e não receberam o tratamento gracioso da cruz de Cristo, costumam ficar amarguradas no íntimo, embora a maioria se apresente muito bem na fotografia.
Parece que neste texto de Marcos, Jesus está mexendo exatamente nessas feridas crônicas, aparentemente camufladas com a arte do faz de conta. Tudo parece muito bem, contudo a inflamação se dissemina sorrateiramente por baixo dos panos.
O contexto deste assunto em pauta começou com a maldição de uma figueira mentirosa. Jesus se aproxima de uma planta em busca de frutos. E, vendo de longe uma figueira com folhas, foi ver se nela, porventura, acharia alguma coisa. Aproximando-se dela, nada achou, senão folhas; porque não era tempo de figos. Marcos 11:13.
Diante desta improdutividade da figueira, Jesus nos surpreende amaldiçoando-a. Este episódio é, no mínimo, muito curioso. Se não era a época certa da frutificação, por que Jesus acabou por condenar aquela planta à morte? Que radicalismo é este, Senhor? Parece um grande absurdo ou total incoerência da parte do Criador do universo.
Não há, na verdade, nenhum exagero por aqui. Jesus não foi cruel com a planta. A árvore apenas estava fingindo. No Oriente Médio, a figueira quando tem folhas, necessariamente tem frutos. Se aquela planta tinha folhagem e não tinha frutos é porque havia alguma anomalia entre os seus galhos. Neste caso, a figueira era apenas uma grande farsa no pomar. Ela estava realmente demonstrando algo falso com a sua aparência.
Esta figueira infrutífera era uma representação patente do povo de Israel que estava vivendo uma grande mentira sistemática. Ele se identificava como sendo o povo de Deus, mas não dava os frutos divinos em seu modo de vida. Como pode um filho do Deus perdoador não perdoar as pessoas que o magoa, assim como o seu Pai, que sempre perdoa?
Quando os discípulos viram que a figueira que Jesus amaldiçoara, havia secado desde a raiz, ficaram perplexos. Então, Jesus inicia um ensino da fé que move montanhas e da oração pela fé, que deve ser tratada concomitantemente com o perdão pessoal, em consequência das raízes da amargura que permanecem no íntimo, ainda que, como uma dor adormecida.
Jesus foi enfático: quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa conta alguém, perdoai. O imperativo aqui implica numa categórica ordem aos seus filhos que estiverem orando, bem como, numa subvenção graciosa, garantida pela soberania divina.
Deus Pai não daria esta ordem aos seus filhos, sem antes prover generosamente todas as condições necessárias para o perdão. Uma vez feitos filhos de Deus, pela graça, também fomos habilitados pela vida de Cristo para perdoar aos nossos ofensores, como o Pai nos tem perdoado.
A questão agora fica assim definida: quem é filho de Deus já foi perdoado por Deus e se tornou, mediante o novo nascimento, num perdoador por natureza. Como filhos de Abba, todos estamos habilitados a perdoar assim como ele nos tem perdoado. Por isso o imperativo: perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas.
Esta ordem é somente para os filhos do Pai celestial. Os pais só devem requerer obediência de seus filhos. Deus não ordenaria aos filhos do Maligno que perdoassem. Este mandamento é apenas para os seus filhos legítimos, que estão capacitados a perdoar com o perdão que Ele mesmo lhes tem doado gratuitamente. (Porém, perdoar não significa convivência forçosa com o ofensor).
Ora, se sou filho de Deus, e vivo neste mundo de trombadas, estou sujeito às contusões diárias, mas, também, estou equipado, pela vida de Cristo, que habita em meu ser, a perdoar aos meus agressores, assim como Ele me perdoou; embora, o perdão não me coaja a coexistir com eles.
Muitos discípulos de Cristo ainda vivem sob a custódia de alguns sentimentos doloridos do seu passado. Eles já foram perdoados total e cabalmente pela graça, mas continuam cultivando emoções dolorosas nos canteiros subterrâneos de suas almas ressentidas. Creio até que sejam salvos, mas ainda vivem melindrosos e malacafentos, cultuando os seus melindres e bochechando a raiz de amargura como se fosse um xarope para curar a sua dor de cotovelo.
O perdão é a única alternativa para a saúde emocional dos salvos. Não existe outra opção para os filhos de Deus, senão perdoar. Foi numa encruzilhada dessas que os discípulos de Jesus quiseram saber até quantas vezes seria admissível perdoar alguém.
A cultura rabínica sugeria que até três vezes seria aceitável. Além disso, era falta de vergonha ou “o sangue seria de barata”. Pedro, em seus exageros clássicos, oferece uma cifra elevada de sete vezes. Porém, Jesus nos espanta com um número estratosférico retirado dos anais históricos.
O Senhor Jesus nos assegura que devemos perdoar 70 x 7 = 490 vezes. Este produto foi retirado da proposta de um humanista inveterado de nome Lameque, descendente de Caim, depois de ele haver ferido e matado pessoas por agressões insignificantes. (Gênesis 4:23-24)
O número sete, apresentado por Pedro, era a cobertura de perdão oferecida por Deus a Caim quando matou o seu irmão Abel. Mas Lameque não aceitou esta proteção e requereu um alvará de soltura bem mais abrangente. Ele queria que o seu pecado fosse perdoado por 490 gerações. Este número é, pois, a resposta de Jesus ao requerimento de Lameque.
O que Jesus estava propondo era uma disposição inflexível e permanente em perdoar. A questão aqui não é de álgebra ou aritmética. Jesus não estava dando aula de matemática, mas de saúde psíquica e libertação espiritual. Se você e eu não perdoarmos aos nossos ofensores realmente, nós nos tornaremos prisioneiros perpétuos de um ódio camuflado.
A prisão de segurança máxima, impossível de se empreender uma fuga, é aquela construída com as grades invisíveis do ódio. Como dizia o Cardeal parisiense do século XVII, François Fenelon, "quem tem mil amigos, nem sempre os encontra; quem tem um inimigo, encontra-o em toda parte". Este inimigo, com certeza, vive escondido debaixo dos nossos próprios trajes.
Para onde você for o inimigo vai junto, mas sem passagem, nem passaporte. Se você for ao restaurante, ele vai com você e come junto, mas só você paga a conta e ele ainda regurgita em seu prato. A dor adormecida no íntimo é uma dor sufocante e atormentadora.
Como disse Brennan Manning, citando o seu amigo Robert Rohr, "quem não aprende a transformar a dor, acaba passando adiante", ou seja, a dor e a vergonha que não são tratadas acabam sendo repassadas para a geração seguinte. Isto é: se não perdoarmos de fato, o feto já vem sofrendo em seu íntimo com a nossa amargura adormecida.
A questão básica é como tratá-la. Para mim, só há um remédio à vista: a cruz de Cristo Jesus. Para podermos perdoar de verdade precisamos morrer juntamente com Cristo na cruz e recebermos a vida da ressurreição como a única capaz de perdoar completamente.
E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. Marcos 11:25. Esta é uma ordem de Pai para filho. Como já disse anteriormente, Abba não requer obediência dos filhos do Diabo.
Se você não for um filho de Deus, você nada tem a ver com este mandamento. Mas, se for um dos seus filhos tem tudo a ver, e não tem opção: ou perdoa ou perdoa.
Este perdão não é quando a outra pessoa tem alguma coisa contra você. Neste caso, o procedimento é o seguinte: Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. Mateus 5:23-24.
Quando o seu irmão estiver embirrado com você, por alguma coisa que você tenha feito, a alternativa é buscar a reconciliação com ele. Se, contudo, ele não quiser se reconciliar com você, então o entregue ao Senhor e espere o tempo da graça em sua própria vida. Porém, se é você que está magoado com a pessoa que o ofendeu, a ordem do Pai é: perdoa.
Neste caso, o perdão envolve a cifra de 490 vezes ao dia, pela mesma falta. Se você e eu não perdoarmos de verdade, por mais grave que seja a ofensa, fica claro que não somos filhos de Deus. Além disso, vamos apodrecendo vagarosamente em nossas entranhas emocionais, nesta vida, aguardando o tempo em que arderemos no tártaro, na vida futura. Isto não é ameaça tola, nem argumento para constranger os covardes. É apenas a constatação dos fatos bíblicos.
Quem não perdoa de fato é escravo dos piores sentimentos, o ódio; e vítima do mais severo dos déspotas, o seu próprio ego ferido. Enquanto o perdoador vive de férias no palácio do amor incondicional, o amargurado vegeta na masmorra da murmuração, sorvendo o fel do seu próprio ressentimento e envenenando quem se aproximar do seu quintal de espinhos.
Filho querido de Abba, observe! E, quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. Marcos 11:25.