O TOQUE CURADOR DE JESUS

"E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra". Mateus 8:3.

A lepra era um grande estigma na época de Jesus. Ainda hoje esta enfermidade se encontra carregada de preconceitos, mantendo as pessoas sãs distantes das doentes. No tempo de Jesus, um leproso deveria manter-se longe dos sadios. Ele não poderia aproximar-se menos que um estádio.

Para os judeus, 185 metros eram, no mínimo, a distância garantida. Mas o leproso viu em Jesus o porto seguro e se atreveu a percorrer o espaço da segregação. Aproximou-se de Jesus porque percebeu nele a sua aceitação integral. Um leproso jamais seria tocado por alguma pessoa sã. Tal doença era considerada muito grave, além do mais, a pessoa que tocasse no leproso tornava-se impura, do ponto de vista religioso.

O que ainda nos assombra, neste caso, é que Jesus também rompe o isolamento entre ele e o doente, para tocá-lo. Jesus toca nos intocáveis. Não seria mais razoável que apenas falasse com o enfermo, sem precisar tocar nele? Por que o Senhor decide por as suas mãos sobre o leproso?

É muito curioso observar os gestos de Jesus quanto ao toque nos enfermos, indigentes ou necessitados. Ele sempre estava se aproximando dos carentes para tocá-los. Por quê? Aqui está a interessante terapia do amor. O toque tem um poder de acalmar, de desenvolver afeto e de produzir hormônios capazes de restaurar a saúde e o equilíbrio emocional. O toque é curador.

Dois cegos procuraram Jesus, apalpando o ar nas trevas da cegueira, mas o Senhor compadecendo-se deles, lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se-vos conforme a vossa fé. Mateus 9:29. Não poderia apenas falar com eles? Por que tocá-los? Temos que avaliar melhor o poder do toque.

Quando os discípulos de Jesus, Pedro, Tiago e João foram surpreendidos pela grandeza do extraordinário e caíram de bruços espantados, tomados de grande medo, então, aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! Mateus 17:7. O Senhor tocou em cada um deles, de modo particular. Foi um toque pessoal. Por que não tocar apenas em um deles?

O texto nos diz: toucou-lhes. Por outro lado, não seria suficiente falar com eles? Por que o Senhor, frequentemente, toma essa decisão de tocar nas pessoas, diante dos seus sofrimentos e angústias? A sua terapia era a mesma de sempre, pois o toque toca o mais profundo do ser, trazendo cura, libertação e gerando afetos tocantes.

Outros dois cegos em Jericó gritaram para Jesus: tem compaixão de nós. A multidão, como sempre, tenta sufocar o grito dos cegos, mas Jesus escuta a agonia da petição e toma a iniciativa do encontro. Logo depois de saber qual era a demanda deles, diz-nos o evangelista: Condoído, Jesus tocou-lhes os olhos, e imediatamente recuperaram a vista e o foram seguindo. Mateus 20:34. Assim, não só viram o mundo físico, como sentiram o poder espiritual do toque afetuoso de Jesus

Jesus tocava até mesmo num caixão de defunto. O seu toque quando não é restaurador, acaba sendo assustador. Chegando-se, tocou o esquife e, parando os que o conduziam, disse: Jovem, eu te mando: levanta-te! Lucas 7:14. O toque do Senhor tem sempre um poder de vida.

Não era permitido a um judeu tocar num defunto, nem no seu ataúde, pois isto o tornava imundo, mas, o Senhor da vida, quebra os preconceitos, devolvendo o bem-estar da alma diante da falência humana, quer física, quer moral ou espiritual. Ele nos surpreende com os seus relacionamentos, contatos e toques, curando as feridas e emancipando as vidas contaminadas de crendices.

O toque do Senhor era esperado até pelos que o observavam em seu ministério. Então, lhe trouxeram um surdo e gago e lhe suplicaram que impusesse as mãos sobre ele. Marcos 7:32. Sabiam que o seu toque era curativo. Não se tratava de curandeirismo, mas de uma terapia radical.

Às vezes ele nos impressiona com os seus toques diferentes. Podemos até ficar nauseados com alguns métodos de sua terapêutica. Vejamos este, por exemplo: Jesus, tirando-o da multidão, à parte, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com saliva;depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te! Marcos 7:33.

A sua saliva foi usada outras vezes como fármaco em seus toques. Para nós, do período da ciência moderna, esta conduta clínica pode ser considerada nojenta. A boca é um dos locais de maior concentração de bactérias. A baba é considerada uma coisa asquerosa.

Entretanto, a boca de Jesus era de um homem sem pecado, consequentemente, sem a contaminação dos vírus da morte. Não havia micróbios contagiosos em sua boca, pois aquela secreção era a saliva do Verbo divino, untando as feridas humanas.

Em seus milagres messiânicos, Jesus persistia quebrando dogmas sectários e usando toques inusitados. Com o cego de nascença, o toque vem misturado com o lodo de seu cuspe. Dito isso, cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego,dizendo-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado). Ele foi, lavou-se e voltou vendo. João 9:6-7.

Cristo Jesus é o Deus que toca nos machucados, mas, também se deixa tocar pelos lesados e contundidos da vida. Há muitos intocáveis que acabam tocando no Senhor. Os resultados, porém, são sempre os mesmos. Tanto aquele em quem Jesus toca, de modo pessoal, como aquele que pessoalmente toca em Jesus, os efeitos se assemelham.

Uma mulher que vinha padecendo durante anos de um sangramento grave veio por trás dele e lhe tocou na orla da veste, e logo se lhe estancou a hemorragia. Lucas 8:44. Aquele que toca os marginalizados é também a Fonte curadora ou restauradora, quando é tocado.

A pobre mulher havia gasto todas as suas economias com a medicina da época, sem um saldo positivo em sua busca. Mas ela não desiste e, caminha decidida em direção à Fonte do afeto incondicional, crendo que seria atendida pela suficiência de quem é suficiente para acolher os feridos e necessitados, a fim de sará-los de suas dores, restituindo-lhes a dignidade conturbada.

Jesus não apenas toca nos indigentes e indignos, mas se deixa tocar por eles. Na sua agenda há sempre um espaço para as entrevistas com as pessoas socialmente intocáveis.

O Senhor foi convidado a participar de um jantar na residência de um fariseu distinto, quando uma mulher pecadora, provavelmente uma prostituta, sentiu-se autorizada a entrar naquela casa de nobreza religiosa. O local era um território sagrado e essa mulher com a fama que tinha, jamais entraria ali. Mas Jesus encontrava-se lá como o seu passaporte. Onde Jesus estiver presente, os indigentes e indignos podem ingressar, sem medo, pois ele os aceita integralmente.

O costume da época era o anfitrião dar todo o acolhimento ao visitante. Uma bacia com água para lavar os pés empoeirados era oferecida pelo dono da casa, bem como óleo perfumado para amaciar os cabelos ressecados pelos ventos áridos, além dos ósculos costumeiros de saudação.

Nada disto Simão, o fariseu hospedeiro, ofereceu a Jesus. Ele era um homem mesquinho, todavia, os seus pensamentos eram generosos para recriminar Jesus, pelo fato dEle se deixar tocar por aquela mulher. Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. Lucas 7:39.

Quem não se deixa tocar ou quem não toca em Jesus, acaba murchando em sua vida espiritual. As pessoas mais áridas que conheço são as que se privam do toque curador de Cristo.

Os discípulos de Jesus sofriam de uma síndrome de segregação ou de exclusivismo. Eles queriam Jesus só para eles e não queriam que Ele tocasse na criançada. Então, lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Marcos 10:13.

Naquele tempo o toque de Jesus era do homem de Nazaré. Os seus discípulos não queriam que o seu Mestre tivesse na agenda um tempo com as crianças. Hoje, o problema é semelhante, embora o toque atual não seja do homem histórico, mas dos discípulos em que Cristo vive neles.

Depois de dois mil anos de história do cristianismo o problema continua o mesmo. Vivemos, atualmente, numa época de falta de toque e, aqueles que são denominados discípulos de Jesus, são daqueles que, muitas vezes, mais trabalham distanciando Jesus das crianças.

Todas as vezes que ficamos ocupados, a ponto de não termos tempo para tocar nos nossos filhos, estamos impedindo que o toque amoroso de Cristo se manifeste através de nós, a eles.

Precisamos entender a realidade espiritual da vida cristã. Cristo Jesus se manifestou na terra para nos levar a morrer juntamente com ele na cruz. Uma vez mortos, com Cristo, fomos ressuscitados com Ele, e, deste modo, Cristo veio habitar em nós.

O cristianismo não sou eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim. Logo, quando toco em alguém, é Cristo quem está tocando nesta pessoa.

O mundo atual passa por um momento glacial profundo. As relações humanas têm se esfriado em consequência da reprodução vertiginosa da crueldade. Jesus previu este tempo ao dizer: E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos. Mateus 24:12.

Vivemos agora nesta estação gelada de afetos e não temos tempo para tocar nas pessoas e, principalmente, nas crianças. Além do mais, quando se toca é para ferir. Quantas crianças estão sendo abusadas e feridas pela desumanidade de uma humanidade sádica ou perversa?

É triste vermos os projetos tramitando nas Casas das leis, que dizem legislar em favor das nações, defendendo o aborto, ou melhor, o assassinato de crianças indefesas, além de abrandar a pena daqueles que as violentam. É lastimável vermos os chamados parlamentares formulando leis que servem apenas para se lamentar da condição até onde chegou a miserável raça humana.

Quando os discípulos do Senhor tentaram impedir que as crianças se achegassem a Jesus, ele ficou indignado ao extremo. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Marcos 10:14.

Aganakteo, no grego, significa que Jesus estava muito zangado. Esta é a condição da chamada, ira santa e, não existe alternativa. Temos que nos encolerizar diante da injustiça, caso contrário, perdemos a compostura humana. Não é possível assistir a violência contra a criança, sem nos indignarmos contra os sistemas que favorecem essa atrocidade emocional.

Como ênfase ao lamentável dia da criança, uma vez que a criança não deveria ter um dia só para elas, sinalizando a sua importância, quero evidenciar a minha indignação, como Jesus demonstrou a sua diante da ausência do toque significativo, nestas vidas tão carentes de afeto.

Quando a criança não recebe o toque de afeto expressivo, pode acabar tendo TOC, ou seja, Transtorno Obsessivo Compulsivo. A falta de relação significativa suscita a cata de afeição a todo custo, e, este custo é, muitas vezes, pesado demais para se suportar por toda a existência.

O toque curador é o toque que toca no cotidiano das crianças carentes, em suas carências mais simples, bem como naqueles adultos que carecem do afeto amoroso, demonstrado na graça de Cristo. Não apoio um dia especial para as crianças, uma vez que, todos os dias devem ser dedicados ao maior projeto da família, isto é, criar filhos com afeição e firmeza com o toque curador.

Felizes são as crianças cujos pais as tocam com o toque amoroso de Jesus. Aleluia.

Glênio Fonseca Paranaguá