A DISSECAÇÃO DE UM CONFLITO

Parece que há um grande conflito na compreensão entre o que é velho homem e natureza terrena. Tenho visto muita discussão e muita confusão nesse terreno. Por isso, tenho pedido ao Espírito Santo que nos esclareça. Vou, assim, procurar dar, outra vez, a minha visão do que acredito ser o que a Bíblia diz sobre o assunto e como o entendo.
O velho homem foi crucificado com Cristo. Mais claro que isso, impossível. Nosso velho modo de viver foi pregado na cruz com Cristo, um fim decisivo para aquela vida miserável de pecado. Não estamos mais à mercê do convite do pecado! Cremos que, se estamos incluídos na morte de Cristo, que venceu o pecado, estamos incluídos também em sua ressurreição, que nos traz vida. Rm 6:6-7, BM.
O apóstolo Paulo parece convicto dessa verdade, pois ele está sempre dando ênfase nesse ponto: A velha vida de vocês está morta. A nova vida é a vida real — ainda que invisível aos espectadores — com Cristo em Deus. Ele é a vida de vocês. Quando Cristo, a verdadeira vida, aparecer de novo na terra, o ser verdadeiro e glorioso de vocês vai se manifestar também. Enquanto isso, estejam contentes com a obscuridade, como Cristo. Col. 3:3-4 BM.
Mas, ele também insiste que nós, os crentes, matemos nossa natureza terrena. Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; Colessenses 3:5.
Então, uma coisa não é a outra. Ou é? O que já morreu não precisa ser morto. Ninguém pode matar um defunto. Porém, se somos ordenados a fazer morrer a natureza terrena, é porque ela ainda não foi morta. Portanto, tudo indica que o velho homem e a natureza terrena não são os mesmos.

O que encontra-se totalmente corrompido e desesperadamente perverso em nós ? É o nosso velho Adão ou a natureza terrena? Tudo indica que é o nosso velho eu, o Adão irregenerado, que foi morto na cruz com Cristo. Ele precisava morrer. E foi morto.
Mas, como justificar a presença do pecado numa nova criatura? Ou, será que a nova criatura não peca mais? E, se o velho homem morreu de fato, por que não cessou, o pecado, de uma vez? Então, nós temos dois homens convivendo dentro de nós?
Alguns me perguntam: você acredita que o cristão tenha um novo homem e um velho homem ao mesmo tempo? Minha resposta é, não, porque o velho, corrompido, já foi crucificado com Cristo e está morto. O cristão é um novo homem, pois Cristo vive nele.
O velho é o eu não regenerado. O velho é o espírito de Adão que foi crucificado na cruz, com Cristo, e substituído pelo novo homem, gerado através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Se eu e você somos novas criaturas, o nosso velho homem adâmico foi crucificado, e, agora, nós estamos regenerados. Somos assim novas criaturas, com uma nova inclinação para a vida espiritual.
Em outras palavras: você e eu não estamos metade salvos e metade perdidos, no que diz respeito à vida espiritual. Nós estamos regenerados por inteiro no espírito. Nós não temos um homem regenerado e um homem não regenerado guerreando um contra o outro dentro de nós, como se fosse uma luta de MMA. (Mixed Martial Arts).
Há uma guerra sim, mas não é entre a velha criatura e a nova criatura, pois, quem crê é apenas nova criatura. Nós não temos um novo homem e um homem velho se engalfinhando em nosso interior. A luta é entre o espírito regenerado é a natureza terrena, ou, entre a Vida de Cristo em nós e a vida da carne, que ainda não foi transformada.
A natureza terrena foi criada perfeita no Éden, mas com o pecado, caiu. Toda a natureza encontra-se sujeita às consequências do pecado. Mesmo, Cristo Jesus, quando se encarnou, recebeu um corpo sob os efeitos da queda e as consequências do pecado.
Vejamos nessa versão a relação da vida do Cristo encarnado. A lei não tinha poder, porque tinha sido enfraquecida por nossa condição humana e pecadora. Mas Deus fez o que a lei não podia fazer. Ele enviou o seu próprio Filho para a terra com um corpo como o nosso, que é humano e sujeito ao pecado. Deus o enviou como sacrifício pelo pecado e assim, por meio desse corpo humano, condenou o pecado. (Carta aos Romanos 8:3 VFL)
Ainda que Jesus fosse homem sem pecado, pois não foi gerado do esperma de Adão, já que o pecado entrou na raça por Adão, Ele, todavia, não foi encarnado isento de pecar. Além do que, seu corpo foi gerado de um óvulo caído, portanto, muito mais sujeito ao pecado do que Adão antes de pecar. Mas, Ele nunca pecou e, no fim, Ele crucificou o nosso velho Adão, o servo do pecado, juntamente com Ele.
O velho eu não regenerado morreu, mas o novo eu regenerado vive ainda num corpo caído e tem uma alma que sofre com as influências do pecado... você e eu, que já fomos crucificados e ressuscitados com Cristo, somos novas criaturas, contudo, estamos presos à matéria caída que padece com os efeitos do pecado. (Gl 5:17).
Quando somos convertidos e feitos cristãos, pelo Espírito Santo, nós deixamos de ser homens velhos e passamos a ser novas criaturas. Veja isso aqui: Se alguém está em Cristo, é nova criatura ou criação. O salvo não tem mais o homem velho agindo em seu ser, é verdade, mas ainda tem uma natureza terrena ou carnal esperneando.
Como cristãos, não temos, ao mesmo tempo, o velho eu e o novo eu, vivendo em nós. O eu velho morreu e agora o que vive é o novo. Não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim. O velho Adão morreu. Todavia, na vida cristã sentimos ainda os efeitos de nossa natureza terrena que não foi regenerada e encontra-se contaminada com o vírus da perversão da queda edênica.
O apóstolo Paulo, falando da natureza caída declara: E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Romanos 8:23.
O corpo dos filhos de Deus espera a redenção. Carregamos um corpo de morte em nossa caminhada de vida eterna. O espírito é vivo por causa da vida de Cristo, mas o corpo é mortal por causa da operação do pecado que se manifesta nesse mundo.
Parece que está certo: nós fomos salvos em nosso espírito da condenação do pecado, por meio do sacrifício de Cristo; estamos sendo salvos em nossa alma, do poder do pecado, através da vida ressurrecta de Cristo; e seremos salvos em nossos corpos, da presença do pecado, quando da vinda de Cristo.
Enquanto habitarmos nesses corpos com uma natureza corrupta e corruptível, estaremos sujeitos às manifestações do pecado. Todavia, se, pela graça, dependermos do poder do Espírito Santo, somos habilitados, pela vida de Cristo, para mortificar os feitos da carne, como nos mostra o apóstolo em Rm 8:13.
Não há dois "eus" governando o ser da nova criatura, um velho e outro novo; há apenas um eu, isso é, o novo homem em Cristo. Não temos dupla personalidade. Mas, há um novo homem vivendo num corpo corruptível. Há uma natureza terrena caída sujeita ao pecado, que precisa ser mortificada pelo poder atuante do Espírito Santo.
Voltamos a pensar em Jesus. Se ele não tinha velho homem agindo nEle, tinha porém uma natureza terrena sob os efeitos da queda, sendo tentado em todas as coisas à nossa semelhança. Contudo, Ele nunca pecou, uma vez que decidiu confiar totalmente na suficiência do Pai. Jesus foi um homem que viveu aqui na terra pela fé somente.
Nós temos muita dificuldade de entender a relação da união hipostática, isto é, o convívio do Deus-Homem, as duas naturezas numa só pessoa. Mas, temos que levar em conta o que diz a Bíblia. Cristo ao ser encarnar, esvaziou-se de sua glória e manteve-se 100% como Deus, sendo 100% dependente da vida 100% humana de Jesus, que viveu aqui 100% dependente do governo e direção do Pai.
Jesus como homem era 100% homem e 100% tentado como todo homem. Ele foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança. Nós fomos criados à semelhança da Trindade e caímos. Jesus foi gerado à nossa semelhança e foi tentado como nós, porém, não pecou, porque dependeu integralmente da suficiência do Seu Pai.
Assim como Adão, antes do pecado, podia pecar e não pecar, Jesus, o homem histórico, realmente homem poderia também pecar e não pecar. Se Adão pecou ao decidir agir por conta própria, Jesus não pecou ao resolver confiar apenas no Seu Pai.
Adão tinha sua natureza terrena incontaminada, mas contaminou-se. Por outro lado, Jesus tinha Sua natureza terrena pós pecado, sob os efeitos da queda, mas, mesmo assim, nunca pecou, além do que tomou sobre si, não só os pecados de Seu povo, mas o velho homem dos Seus eleitos, a fim de crucificá-los juntamente com Ele.
Adão foi criado sem pecado, reto, com uma natureza terrena pura, mas quando pecou, viu a queda da sua natureza terrena e passou a ter um sistema corrupto, que deve ser denominado de velho homem. Esta é a fonte do pecado e seu escravo permanente.
Jesus foi gerado no ventre de Maria, recebendo Seu corpo material pós pecado com os efeitos da queda, sem, contudo, a contaminação do velho homem, pois, nunca pecou. Ele tinha uma natureza humana terrena, embora não tivesse velho homem agindo em Seu ser. Ele foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança, mas sem pecado.
Cristo se encarnou em Jesus para ser nosso Salvador. 1º - da condenação do pecado em nosso espírito, perdoando todos os nossos pecados na cruz e crucificando o nosso velho homem. 2º - do poder pecado, na alma, por meio do Espírito Santo, na mortificação de nossa natureza terrena. 3º - da presença do pecado, quando houver a transformação dos nossos corpos carnais em corpos de glória.
Se o nosso velho homem for o artista principal do pecado, a natureza terrena será o seu coadjuvante. Para que a carne se expanda em sua força maior é preciso que o velho homem esteja no comando. Se o nosso velho homem for destituído de sua função principal e o novo homem tomar o comando em nosso ser, a carne poderá ser mortificada, pela nova criatura, perdendo, assim, o seu governo em nossas vidas. Aleluia. Amém.